Stella Maris Saldanha
“Eu me sinto uma servidora do teatro, não consigo mais me afastar dele”, confessa Stella Maris Saldanha, que se divide entre os ofícios de jornalista, professora e atriz. “Eu me considero uma pessoa de muita sorte, pois eu só faço aquilo que gosto”, revela.
TUDO NÃO PASSAVA DE PURA BRINCADEIRA

A veia cênica de Stella Maris pulsou cedo. Na adolescência, ela foi uma das responsáveis pela criação do primeiro grupo teatral do colégio onde estudava. “Tudo começou como uma grande brincadeira, com pequenas produções, mas depois eu fui levando a sério e decidi me aperfeiçoar”, recorda. Aos 16 anos, a atriz ingressou no curso de teatro oferecido pelo grupo Hermilo Borba Filho, onde estudou e fez a estréia na primeira peça profissional, um ano depois, em Pluf, O Fantasminha, cujo texto tem a alcunha de Maria Clara Machado.

TEATRO É VITAL

Encerrada a temporada de Pluft, Stella encarou o desafio de interpretar a personagem principal de Os Fuzis da Senhora Carrar, escrita pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht. A montagem foi eleita a melhor pelo Serviço Nacional de Teatro e rendeu a Stella o prêmio de Atriz Revelação, em 1978. Nos anos seguintes, ela participou de espetáculos como Um Grito Parado no Ar (1979), de Gianfrancesco Guarnieri, Equus (1980), de Peter Shaffer e A Resistência (1980), da escritora Maria Adelaide Amaral.

Durante a década de 1980, porém, Stella passou a dividir a paixão pelos palcos com outra atividade igualmente querida: o jornalismo. “Entrei na faculdade porque adorava escrever e queria muito trabalhar em jornal impresso”, relembra. Mas a verve comunicativa foi determinante para conduzi-la por um caminho diferente. “Acabei me envolvendo com a televisão porque eu acho que, de certa forma, isso tem a ver com minha experiência no teatro”, analisa.

JORNALISMO É COMUNICAÇÃO, TEATRO É CRIAÇÃO

Após uma sucessão de peças consagradas, a jornalista Stella Maris Saldanha se sobrepôs à atriz e acabou por forçá-la a se afastar da carreira artística. “O jornalismo foi tomando conta da minha vida, do meu tempo, até que chegou ao ponto de não conseguir levar as duas coisas”, diz. Além do trabalho jornalístico no ramo televisivo, ela aponta outros fatores que contribuíram para o jejum de 20 anos. “Houve uma queda grande na qualidade do teatro pernambucano, era difícil encontrar bons textos e, para completar, Marcus Siqueira [famoso teatrólogo do grupo Hermilo Borba Filho, que dirigiu Stella em várias montagens] faleceu”, afirma.

Os últimos trabalhos, antes do hiato de duas décadas, incluíram os espetáculos Um Deus Dormiu Lá em Casa, de Guilherme Figueiredo, e A Flor e o Fruto, de José Carlos Cavalcanti Borges, todos encenados em 1988. Na mesma época, Stella Maris teve a primeira experiência no cinema, sob a direção de Paulo Caldas (Baile Perfumado), com o curta Chá.

A atriz, porém, nunca conseguiu manter na surdina a arte de interpretar, ainda que estivesse focada prioritariamente no jornalismo. Por dois anos seguidos, em 1998 e 1999, Stella foi convidada a encarnar Maria, na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém.

O RETORNO

Foi na pele da aristocrática francesa Mathilde Mauté Fleurvill, no espetáculo Anjos de Fogo e Gelo (2008), de Moisés Neto, que Stella Maris retomou a carreira artística. “Mathilde era uma mulher inteligente, culta e muito determinada”, diz. A peça, cuja direção ficou a cargo de José Francisco Filho, trata do controverso romance entre os poetas franceses Arthur Rimbaud e Paul Verlaine, na França do século 19. A imponente senhora Mathilde é esposa de Verlaine e dona de uma personalidade forte. Após poucos anos de casada, toma para si a difícil tarefa de recuperar a vida conjugal ao lado do marido, que se descobre apaixonado por Rimbaud. Além de sofrer por ser traída, ela ainda enfrenta o constrangimento da situação perante a sociedade tradicional da época.

Para incorporar a amargura da personagem, Stella conta que precisou ser solidária com a dor de Mathilde, pois só assim conseguiria defendê-la em cena. “Eu briguei muito por ela, tentando compreender todo o seu sofrimento, afinal o marido a deixou sozinha, com um filho pequeno, para viver com outro homem”, revela.

Anjos de Fogo e Gelo foi um espetáculo marcado por reestréias: a montagem reinaugurou o Teatro Barreto Júnior – fechado durante dois anos para reforma –, na zona sul do Recife, trouxe Stella Maris de volta à cena artística e resgatou os tempos de glória experimentados pelo teatro pernambucano nas décadas de 1970 e 1980. “O grande mérito da peça foi levar o público recifense ao teatro de novo, fazia tempo que nós não tínhamos um texto de qualidade, com produção 100% local”, afirma. Em janeiro de 2009, ela recebeu a indicação de melhor atriz, da Associação Produtores Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe), pela personagem de Mathilde Mauté. Anjos de Fogo e Gelo arrematou os troféus de Melhor Cenário, Melhor Figurino e o prêmio Especial de Teatro Adulto.

FUTURO

Stella retorna às artes cênicas não apenas como atriz, mas também como pesquisadora. Desde o início de 2009, ela integra um projeto, ao lado dos jornalistas Alexandre Figueirôa e Cláudio Bezerra, determinado a estudar a produção dos três principais grupos teatrais do estado: Hermilo Borba Filho, Teatro Popular do Nordeste e Vivencial Diversiones. “Ele [o teatro] tem a função de deslocar, ou seja, de provocar, transgredir. Não adianta ir ao teatro e sair da mesma forma que entrou, ele precisa levar o espectador a algum tipo de questionamento e é isso que me fascina”, confessa. Segundo ela, está descartada a possibilidade de se afastar dos palcos outra vez. “O fato de não atuar tira o equilíbrio da minha vida, eu não consigo mais viver sem teatro, seja representando ou pesquisando”, conclui.

PEÇAS

1) Pluft, o fantasminha - Maria Clara Machado (1977)
2) Os Fuzis da Senhora Carrar - Bertold Brecht (1978)
3) Um Grito Parado no Ar - Gianfrancesco Guarnieri (1979)
4) Equus - Peter Shaffer (1980)
5) A Resistência - Maria Adelaide Amaral (1980)
6) O Cavalinho Azul - Maria Clara Machado (1983)
7) Aurora da minha Vida - Naum Alves de Souza - (1984)
8) A Cantora Careca - Ionesco (1985)
9) Roda Cor de Roda - Leilah Assunção (1986)
9) Um Deus Dormiu Lá em Casa - Guilherme Figueiredo (1988)
10) A Flor e o Fruto - José Carlos Cavalcanti Borges (1988)
11) Paixão de Cristo de Nova Jerusalém (1998 e 1999)
12) Anjos de Fogo e Gelo (2008)

CINEMA

Chá - Paulo Caldas (1987)

PRÊMIO E INDICAÇÃO

Atriz Revelação - Pelo espetáculo Os Fuzis da Senhora Carrar - 1978

Indicada ao Prêmio Apacepe de Melhor Atriz - Por Anjos de Fogo e Gelo - 2009

CONTATO

Rainbow Proventos
Email: rainbow_proventos@yahoo.com.br
Fone: (81) 9645.9674


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